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Cidade Sem Mar

Martha Medeiros

O Rio de Janeiro continua lindo porque, apesar da violência e do clima de insegurança (que, aliás, não é mais privilégio dele), possui um mar que ameniza qualquer medo. O mar dá à cidade um caráter juvenil, alegre, impactante, o mar é a recompensa por todos os esforços do dia, o mar determina o espírito de um povo, é a presença diária e bem-vinda da natureza. Não por acaso, os moradores de uma cidade com praia parecem ter mais gosto pela vida.

Mesmo o Brasil tendo essa orla espichada, importantes cidades do país não têm mar, como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília e a ilustríssima Porto Alegre. Como é que nós, os sem-mar, fazemos para aplacar o calor e buscar um elemento lúdico em nossa rotina de verão? Ora, para isso existem as piscinas.

Uma amiga minha, escritora paulista, usa muito a expressão "um dia de piscina" quando quer se referir a um dia surpreendente, em que a gente foi feliz feito criança. É uma definição nostálgica e bem na mosca. Piscina tem mesmo um componente infantil, é o brinquedão dos sonhos.

Quando eu era garota, fazia listinha para Papai Noel e pedia sei lá o quê, boneca, um jogo, um disco. Tudo prêmio de consolação, porque o que eu gostaria de pedir, mesmo, eu jamais ganharia: uma casa com piscina. Como é que ele iria descer pela chaminé carregando uma piscina, isso no caso de termos uma chaminé, e ainda levando em conta que o velho existia?

Morei a vida toda em apartamento. Sempre em edifícios antigos, com ruas arborizadas, turma de rua, molecada, bicicleta, liberdade. Descrevo esse período para minhas filhas e elas me olham com uma certa piedade: coitada da mãe, não tinha computador. Não tinha computador, DVD e celular, mas tinha muros, árvores e pátios com bicho cabeludo, lesma, borboleta. E uma amiga que morava numa casa com piscina. Uma piscina de verdade, gigantesca para meus olhos miúdos, nem um pouco parecida com essas banheirinhas de cobertura que fazem de conta que são piscinas.

Ela não era mais feliz nem mais infeliz que eu. Tinha uma piscina, apenas isso. Mas eu, que o máximo que tinha era um chuveiro considerava uma festa ser convidada para passar as tardes quentes de dezembro nadando com ela. Uma piscina. O sonho mais proletário, mais azul e mais inocente que uma criança de apartamento podia ter.

Ainda vivo em apartamento e meus prazeres mudaram. Hoje, considero que o melhor presente, em qualquer época do ano, são viagens, livros, amor, amigos, cinema. Mas sigo virando criança quando a temperatura sobe e o céu se abre, quando os vestidinhos leves saem do armário e o sol demora mais para se pôr, quando há mais sorveteiros na rua e menos gente emburrada. Há um convite no ar. Alguns brasileiros sortudos correm para dar um mergulho ali, a algumas quadras de casa, no oceano público. Outros tratam de providenciar seu pedacinho de água cercado de azulejos, seja em sua própria casa, na casa de um amigo, no clube ou nos sonhos. Piscinas. Para uns, coisa de rico. Para outros, coisa de pobre. Para todos, o encanto da infância de volta.


Domingo, 10 de dezembro de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.